As pessoas confundem a necessidade de haver respeito com a necessidade de haver igualdade. O respeito é (poderemos definir assim) a aceitação das diferenças, da identidade, da posse e da acção (ou da função).

Quando aceitamos (não nos opomos a) outra pessoa apesar de ela ser como é , ter o que tem, fazer o que faz, então nós temos respeito por essa pessoa na sua plenitude.
Quando nos opomos ao que a pessoa faz, o nosso respeito pelo que a pessoa faz deixa de existir, o que não implica que o respeito por aquilo que a pessoa é (ou tem) não exista.
O conceito de respeito é muito efectivo, mesmo numa sociedade confusa como a nossa. As pessoas sabem muito bem o que o respeito é e sabem também o que o respeito não é. É um conceito fácil de assimilar e fácil de usar, apesar de ser bastante subestimado.
Quando alguém, ou um grupo de pessoas, é prejudicado ou magoado por alguém, ou alguma entidade, a sociedade tende a usar a fórmula direito à igualdade quando na realidade deveria usar a fórmula direito ao respeito.
Um homem não é igual a uma mulher e um cão não é igual a um gato. No entanto, um homem tem o dever de respeitar uma mulher, uma mulher tem o dever de respeitar um homem e uma pessoa tem o dever de respeitar um gato ou um cão.
Não é preciso sermos iguais para termos respeito uns pelos outros.
Nós não temos de ser iguais para termos o direito de ser respeitados. Nós somos quem somos, somos o que somos, temos o que temos e fazemos o que fazemos. Cada uma destas partes da nossa existência está sujeita à aceitação, ou não aceitação, por parte de outros, sempre dependendo do contexto em que nos encontramos.
Uma mulher, usando um exemplo consensual, não será aceite para jogar futebol numa equipa masculina e um homem não será aceite para ir tomar banho a um balneário feminino, pelo menos até ao dia em que a sociedade se decida por outras regras e outras práticas. Esta premissa aparentemente obrigatória de igualdade não pode, logo ser a mais acertada. Por esse motivo, se a premissa de igualdade não parece ser a que melhor serve, deveríamos então olhar para esta outra premissa mais consequente e mais efectiva – o respeito.
Se quisermos, poderemos dizer que todos somos igualmente merecedores de respeito, igualmente merecedores de oportunidade, igualmente merecedores de tratamento perante a lei, na nossa condição genérica de sermos humanos e de sermos cidadãos, etc. Mas o benefício intelectual do uso do conceito de igualdade pode terminar por aí, sem grande perda para o bem estar da sociedade ou do indivíduo. A partir desse ponto, o que importa é o que a pessoa contextualmente é, quem a pessoa contextualmente é, o que a pessoa contextualmente tem e o que a pessoa contextualmente faz.
Se eu for um médico, por exemplo, eu serei respeitado como autoridade no contexto da medicina. Se não for médico, não serei respeitado nesse contexto. Por outras palavras, o que eu sou define o contexto em que eu posso merecer respeito.
Se uma qualquer pessoa cometer um crime, o Estado retaliará e limitará a sua liberdade. Por outras palavras, a pessoa não irá ter um tratamento igual a outra pessoa que não cometa crimes. O respeito que o Estado tem é pela condição humana genérica da pessoa (o que a pessoa é, genericamente), não pelos meus actos ilícitos (o que a pessoa faz, contextualmente). Esses levam a pessoa a ser presa e a ser castigada de acordo com as leis.
O que uma pessoa faz pode levá-la a ter mais riqueza. “Fazer” implica esforço e este implica, por vezes, momentos de algum sofrimento autodeterminado. Um futebolista pode ser empenhado e treinar mais e de forma mais esforçada. Poderá haver dor envolvida nesse esforço e, por vezes, algum sofrimento pode ser experimentado por esse desportista. Consequentemente, o seu desempenho pode ser melhor do que o de um outro desportista menos empenhado, que se mantém na sua pequena zona de conforto e que evita qualquer esforço que lhe possa trazer dor. Melhor desempenho (o que a pessoa faz) levará a maior retribuição, o que levará a maior posse de dinheiro e de tudo o que este pode comprar (o que a pessoa tem). O Futebol é um exemplo claro de que o conceito de igualdade é pouco efectivo para analisarmos com seriedade um qualquer contexto onde pessoas existem e no qual se movem.
Curiosamente, o Futebol, sendo um reflexo da vida comum e sendo um exemplo de que o conceito de igualdade é pouco representativo do que se está a passar, deveria levar-nos a pensar mais facilmente que esta fixação por este conceito de que “somos todos iguais” é falaciosa e leva praticamente a lugar nenhum.
Em suma, igualdade é um conceito bastante sobre-estimado na nossa sociedade, levando-nos frequentemente a cometermos erros de pensamento que seriam facilmente evitáveis se nos focássemos mais no conceito de respeito. Igualdade é, por essa via, uma forma por excelência de deturpação de direitos individuais, abrindo portas a discriminação de pessoas relativamente a pessoas, sempre em nome da ideia de que as pessoas são iguais umas às outras, independentemente do que essas pessoas são, têm ou fazem no contexto em questão.
Por outras palavras, ao não compreender as diferenças entre pessoas nos vários contextos, os que forçam a igualdade fazem-nos, muitas vezes, recorrendo à supressão de direitos de uns em benefício de outros. O conceito de igualdade torna-se assim numa arma de supressão em nome de uma suposta sociedade “mais justa”.
Mais do que em igualdade, deveríamos pensar em respeito pelas diferenças, respeito pelos direitos que a sociedade decidiu atribuir, não necessariamente à pessoa genérica, mas antes à condição em que a pessoa se encontra, tendo em conta o respectivo contexto, qualquer que seja essa pessoa, qualquer que seja essa condição e qualquer que seja esse contexto.
Um sociedade que persegue ferozmente este conceito de igualdade e decide ignorar que um dos atributos mais extraordinários de um ser humano é a sua identidade única e a sua diferença dos demais, é uma sociedade confusa, tão confusa como aquela em que estamos a viver.