Como pode um cidadão opôr-se a uma organização poderosa? Como pode uma ideia combater uma injustiça perpetrada por uma grande empresa? Como pode um indivíduo insurgir-se com êxito contra um grupo numeroso e organizado?
Numa sociedade como a nossa, as grandes corporações são entidades importantes e extremamente valiosas e, quem sabe, até imprescindíveis ao nosso modo de vida. No entanto, o seu grande poder, como qualquer grande poder, tem um lado benévolo e outro malévolo a que devemos saber responder, independentemente da nossa dimensão. Um David pode derrubar um Golias. Um cidadão pode derrubar um governo. Uma ideia pode derrubar uma tirania.
Se uma grande empresa se comporta mal, o boicote à sua actividade pode incentivá-la a comportar-se melhor. As grandes empresas são, muitas vezes, os nossos melhores fornecedores do que queremos consumir, do que nos dá prazer e do que nos ajuda no dia a dia. Boicotarmos radicalmente a sua actividade seria impraticável, o que representa a razão pela qual os cidadãos preferem não usar este meio cívico de defesa.
No entanto, se em vez de um boicote radical, decidirmos aplicar um boicote moderado, tudo muda. Não deixamos de usar os bens e serviços da empresa, mas siplesmente decidimos usar em menor quantidade. O propósito deixa de ser a eliminação das vendas (o que seria um propósito falhado à partida) mas apenas uma descida das vendas e, por consequência, dos lucros da empresa.
O que torna esta forma de activismo cívico tão poderosa é a sua praticabilidade e a sua reproductibilidade. Se a razão do boicote for justa é fácil convencer outras pessoas a evitar consumir os bens e serviços da empresa em questão. “Evitar consumir” não tem necessariamente ser consumir zero, mas simplemente consumir menos. Preferir a concorrência temporariamente, mesmo que esta seja um pouco mais cara ou de menor qualidade, pode ser aceitável se o motivo for visto como justo.
Vejamos um exemplo de um boicote moderado. Imaginemos que somos fãs de uma determinada marca de computadores cujo fabricante actuou de uma forma prepotente e desrespeitosa dos direitos dos cidadãos. Um boicote moderado poderia ser, preferir acessórios de concorrentes, não comprar software desse fabricante ou publicitar activamente os benefícios de produtos concorrentes nas redes sociais. Se essas acções fossem divulgadas para a comunidade de utilizadores desse fabricante que também vissem como justas as razões para o protesto, as vendas desse fabricante tenderiam a descer. Se as reivindicações fossem justas, o boicote moderado teria a adesão suficiente para obrigar a empresa a repensar a sua atitude.
Pedir à comunidade de utilizadores um boicote radical a uma empresa que seja dominante na sua área (naturalmente por mérito próprio) é condenar esse protesto ao fracasso. No entanto, se for pedida a essa mesma comunidade que “se possível evite comprar produtos e serviços” a adesão poderá ser enorme. Haverá pessoas que não querem (ou não podem) aderir, mas haverá outras que farão questão de “ajudar à causa”. Se a comunidade for consciente das razões pela quais a empresa se pode considerarfaltosa ou mal comportada, a força do boicote moderado pode ser bastante intenso e devastador para a empresa.
Preferir dar força a um concorrente dessa empresa é uma forma de diminuir um pouco a sua dominância. Se a empresa estiver a abusar da sua posição dominante (o que é bastante frequente na nossa sociedade) ajudar as empresas concorrentes poderá ser benéfico para a comunidade no seu todo. O incentivo é claro: o que o consumidor pretende é ser bem tratado e que a empresa seja cordial e justa.
É um pouco como penalizar um amigo por ser incoveniente ou menos bem comportado. Não deixamos de ser amigos – apenas decidimos dar um pouco menos de força a essa amizade a um nível em que esse amigo faltoso se apercebe que não pode ter esse comportamento mau.
O conceito de boicote moderado representa um meio de protesto extremamente poderoso e efectivo, contando que a causa subjacente seja justa e reconhecida pela comunidade de clientes ou utilizadores da empresa faltosa.