Controvérsia e medo geram audiências

As pessoas em geral têm uma tendência para dividir qualquer grupo em duas partes que se opõem uma à outra de modo a criar um jogo entre elas. Esta é uma dramatização facilmente explicável com a nossa história neste planeta. Desde tempos imemoriais que existem tribos rivais e lutas entre espécies diferentes que os humanos podem observar. Essa dramatização materializa-se nos tempos modernos, por exemplo, em jogos de futebol, em combates de boxe e em debates televisivos. Os seres humanos são atraídos pelo espectáculo proporcionado pelo clima de tensão entre duas partes e pela incerteza de quem vai ganhar e de quem vai sair derrotado. O mistério e o suspense desempenham aqui um papel importante.

Controvérsia e medo geram audiências

A polarização é esta divisão de “estes versus aqueles”, “índios versus cowboys”, “este candidato versus o outro”. O que resulta daí é um jogo que atrai a atenção.

O conceito de jogo faz parte da vida do ser humano. A própria vida humana é um jogo. O facto de podermos ver outros a jogar coloca-nos numa posição muito apelativa, na qual podemos “jogar por interposta pessoa”. Ao vermos um jogo entre duas partes, é como se estivéssemos lá. As nossas emoções são uma réplica do que os verdadeiros jogadores estão a experimentar no “campo de jogo”, seja esse “campo”, o relvado de futebol, ou o estúdio em que o debate está a decorrer.

Conhecendo esta atractividade, há quem a use para atrair a atenção das pessoas. Essas pessoas são, neste contexto, aquilo a que chamamos audiência.

Nos tempos modernos, audiência é o meio que os média têm para atrair o dinheiro das empresas que necessitam de promover os seus serviços e os seus produtos. A Audiência (o seu tamanho e o seu envolvimento) é a “mercadoria” que os média vendem aos anunciantes.

Assim, controvérsia atrai atenção de pessoas, e estas constituem audiência que é vendida às empresas. As pessoas, por sua vez, retiram da controvérsia as emoções que as fazem sentir-se “vivas”. Controvérsia produz a adrenalina que corre nas veias das pessoas e tudo isto fecha um ciclo (pouco virtuoso) que faz perpetuar esta gigantesca “máquina” de que todos fazemos parte.

A verdade deixa de ser a prioridade dos média, a não ser nos raros casos em que gera controvérsia, divisionismo e polarização. O mesmo se passa com a cultura ou a educação.

A controvérsia é o “açúcar” da mente humana e o ser humano (o espectador) está viciado nela.

Conhecendo este fenómeno da sobreposição da controvérsia em relação à verdade, cultura e educação, estas três tendem a ser relegadas para segundo plano, o que explica a falta de qualidade dos média que temos.

Ao não se dar conta das implicações deste fenómeno (eu diria, “natural”) a sociedade tende a empobrecer culturalmente, não apenas por não dedicar o espaço mental suficiente à verdade, cultura e educação, mas também por se submeter à manipulação proveniente de quem usa a controvérsia como factor de distracção, ou como factor de persuasão para fins mais, ou menos, obscuros.

Todos nós sabemos que somos manipulados pela publicidade para comprar coisas de que não precisamos assim tanto, ou para acreditarmos em coisas em que, sem influência, não acreditaríamos tão facilmente. A manipulação não tem necessariamente de ser negativa, ou contra os nossos interesses. A publicidade anti-tabaco, é disso um exemplo consensual. Neste exemplo, quem fuma pode ser persuadido a deixar de o fazer. Qualquer anúncio que seja criado para esse efeito que não tente usar técnicas de comunicação que manipulem as crenças do espectador, não terá grande sucesso. No entanto, a controvérsia é este outro campo que merece uma análise muito mais profunda.

A partir do momento que uma qualquer pessoas ou organização com meios suficientes pense em ocupar a mente de um grupo de pessoas com algo que possa servir de distracção, a controvérsia pode ser usada com bastante eficácia. Este fenómeno é facilmente observável nos inúmeros programas de “análise futebolística” que se podem ver nos nossos canais de televisão e em toda a imprensa escrita. Este exemplo é tão claro que dispensa grande explicação.

A controvérsia não é o único foco de interesse do ser humano digno de análise. Para além deste, temos o medo como um forte gerador de audiências. Mais uma vez, a nossa reacção ao medo é explicável pelas nossas raízes antropológicas. Durante a maior parte da nossa existência humana, tivemos de estar muito atentos a predadores e a catástrofes naturais. Toda a nossa estrutura mental está armadilhada com os circuitos que nos permitem reagir à ameaça eminente com a acção de fugir ou lutar. No tempos mais remotos, ameaça significava claramente a perda da vida e foi provavelmente isso que ficou mais gravado na nossa mente, incluindo nos dias de hoje. Perante uma ameaça, o coração bate mais rápido, a adrenalina inunda a circulação sanguínea e o afluxo de sangue dirige-se para as pernas e os braços. Mas, acima de tudo, o foco da nossa atenção dirige-se quase hipnoticamente para a origem da comunicação que está a mostrar essa ameaça. Isso mostra que há mecanismos naturais e ancestrais que se impõem à nossa razão sempre que algo remotamente parecido como uma ameaça de vida ou de morte ocorre em tempo presente.

Por esse motivo, as notícias que os média preferem veicular são as de ameaça, deixando as boas para segundo plano. Ameaça gera atenção e esta materializa-se em audiência que, por sua vez, se converte em dinheiro.

Notícias más (ameaça) geram mais dinheiro do que notícias boas, razão pela qual os média tendem naturalmente a preferí-las.

Sumarizando, controvérsia e medo são as matérias-primas dos média e dos que os controlam, ou os influenciam.

Esta realidade é importantíssima ser devidamente conhecida porque, se soubermos o que nos tenta manipular, podemos ficar mais imunizados relativamente a essas influências.