Divisionistas, caluniadores e agitadores

Para acabarmos com o racismo temos também de acabar com o divisionismo, com a calúnia e a agitação ilícita e injustificada.

Há pessoas a querer criar divisões artificiais na nossa sociedade. A essas pessoas chamo “divisonistas”. São pessoas caluniadoras e que usam manobras agitadoras para benefício próprio.

A nossa sociedade (qualquer sociedade) funcionará bem enquanto se mantiver um certo equilíbrio de direitos básicos entre as pessoas e enquanto se mantiver uma certa paz e tranquilidade. Os direitos básicos das pessoas possibilita a estas acederem a recursos em igualdade de circunstâncias, o que promove uma cultura de mérito e de competência. Numa sociedade equilibrada em que todos têm direitos básicos iguais, a diferença no acesso aos recursos depende da contribuição que cada membro da sociedade oferece aos demais. Poderá haver (e haverá) distorções a esta regra, mas basicamente o mérito e a contribuição individual para a sociedade estão razoavelmente relacionados com os recursos a que cada pessoa pode ter acesso.

Os divisionistas querem por-nos uns contra os outros

Qualquer outro critério que dite o direito de acesso a recursos que não se baseie no mérito, na competência e na contribuição para o bem estar da sociedade, tenderá a degradá-la. A excepção a isto é a solidariedade para com aqueles que, por doença ou incapacidade física ou mental, não conseguem contribuir para a sociedade. Uma sociedade equilibrada e sã saberá sempre cuidar dos seus.

O racismo é um fenómeno hediondo e inadmissível numa sociedade sã porque introduz um critério de acesso aos recursos que depende, não do mérito, da competência ou do valor da contribuição para a sociedade, mas antes de características físicas, genéticas ou étnicas.

Uma pessoa divisionista é alguém que tenta activamente criar conflitos entre grupos de membros da sociedade, caluniando pessoas e rotulando-as como sendo más ou prejudiciais, usando para esse efeito ideologias identitárias e ideias distorcidas que importa sermos capazes de reconhecer.

(Segundo o infopedia.pt, identitarismo é: “movimento ou ideologia que prioriza a identidade de um determinado grupo fechado (de cariz étnico, religioso, etc.), em detrimento de lógicas comunitárias alargadas e abrangentes, geralmente defendendo também o reforço da posição desse grupo face a outro(s)”)

Os divisonistas atacam as pessoas comuns que constituem a maioria da população, agitando grupos minoritários para os fazerem pensar que a maioria lhes é hostil. Eles falam em coisas como a cor da pele, discriminação e injustiça. Eles dão exemplos de casos nos quais algumas pessoas mal comportadas hostilizaram pessoas que pertencem a essa minoria, com a intenção de generalizar esse mau comportamento (de uns poucos) a todas as pessoas que pertencem à maioria.

Esta retórica leva algumas pessoas dessa maioria a também acharem que é verdade, que realmente a maioria a que pertencem é hostil à minoria. Confunde-se assim a árvore com a floresta, o que curiosamente corresponde a uma discriminação tão estúpida como aquela que os divisionistas afirmam estar a ser aplicada à sua minoria.

Os divisionistas focam-se especialmente na representatividade, defendendo fervorosamente que uma minoria tem de ser representada nos orgãos de poder por pelo menos um dos seus membros. Esta tese é-lhes muito oportuna porque são curiosamente estes divisionistas que anseiam ser os representantes dessa minoria. O seu interesse é claro: aceder a lugares de poder, lugares esses que, se fosse por mérito próprio, lhes seriam muito provavelmente vedados.

Se esta tese sobre representatividade fosse a mais válida isso significaria, por exemplo, que no parlamento também deveriam haver presidiários, crianças ou pessoas sem abrigo, só para dar alguns exemplos. Os divisonistas confundem propositadamente a representatividade com algo que apenas pode ser assegurado pelos próprios membros representados, o que é algo impraticável e que não é essencial a uma democracia. Por outras palavras, tendo os orgãos de poder (como o parlamento, por exemplo) lugares limitados, não seria sequer possível haver representantes de tudo e de todos.

Aceitando inadvertidamente este ponto de vista sobre representatividade, a sociedade tende a forçar a introdução de pessoas divisionistas nos seus seios de poder, fazendo uso de critérios que nada têm a ver com mérito. O estabelecimento de quotas obrigatórias de pessoas de determinado grupo minoritário, por exemplo, peca por se afastar dos critérios de mérito, preparação técnica ou competência.

A razão principal que leva a sociedade a deixar-se levar por estas ideias (que nada têm a ver com a melhoria da democracia) está relacionada com um fenómeno muito difícil de detectar e igualmente muito perverso – o sentimento de culpa da sociedade pelos eventuais actos maldosos de antepassados e que pertencem à história.

Os divisionistas são muito eficazes a semear culpa na sociedade. Trata-se de culpa completamente sintética, mas que mesmo assim é sentida com grande intensidade pela sociedade, principalmente pela maioria da sociedade. Essa “culpa” é fomentada de um modo que passa despercebido pelas pessoas, o que a torna bastante efectiva e perigosa.

Para entendermos o porquê dessa culpa ser totalmente artificial, podemos pensar na seguinte analogia:

  • Se o seu avô tivesse feito algo de errado no passado, qual seria actualmente a sua culpa nesse assunto?
  • Se ele tivesse igualmente feito alguma coisa certa no passado, seria legítimo sentir orgulho por isso?

Ao reflectir-se sobre estas duas perguntas torna-se relativamente mais fácil aceitar que uma pessoa, em tempo presente, não pode ser responsabilizada por algo que os seus antepassado possam eventualmente ter feito. Por esse motivo, não é legítimo pedir-lhe que se sinta culpada por isso. Igualmente, se esses antepassados tiverem feito algo heróico ou muito bom, não será errado sentir orgulho por isso. Se pensar no seu pai, ou na sua mãe, verá que se um deles fizer algo que é reprovável, não será errado sentir orgulho pelo seu lado bom, e não será obrigatório que sinta culpa por o que ele (ou ela) tiver feito de mau.

Seguindo este raciocínio, a pergunta que é importante fazer é:

  • Porque é que eu tenho de sentir-me culpado por o que os meus antepassados fizeram de errado?

A resposta é óbvia: eu não tenho de me sentir culpado!

Eu não posso ser responsabilizado pelos actos de qualquer um dos meus antepassados pelo simples facto de que não foram actos meus, para além de que eu não tive qualquer controlo sobre esses actos.

Os divisionistas são assertivos e muito eficazes a explorar “culpa” da maioria pelo seu passado histórico, muitas vezes até com base em dados falsos ou distorcidos.

Dando um exemplo propositadamente exterior ao nosso país, um alemão de 20 anos não pode ser responsável pelo passado violento do seu país. Logo, não há qualquer razão que justifique assumir uma culpa que não lhe pertence. Esse alemão (neste nosso exemplo) terá apenas de se preocupar com a sua participação actual na sociedade, com as ideias que ele próprio defende, com o que ele apoia e com o que ele reprova. As suas decisões não devem ser influenciadas pelo mal que os seus antepassados fizeram, mas apenas pelo que a sua sociedade actual está a fazer e sobre o qual ele possa ter alguma influência.

Um divisionista confundirá (para sua própria conveniência) tudo isto e tentará levar a maioria da sociedade a sentir-se culpada pelos actos dos seus antepassados. Com base nessa culpa artificial, tentará justificar a razão pela qual determinada minoria deverá ser recompensada com privilégios que vão para além do que conseguiria pelo seu próprio mérito, competência e preparação técnica.

O divisionista atacará qualquer pessoa (ou grupo de pessoas) que se oponha a esta ideia, usando como arma oculta este sentimento de culpa da maioria da sociedade. Os ataques aos seus opositores serão sempre levados a cabo na forma de tentativas “legítimas” de os silenciar.

Apoiados pela sua auto-proclamada “superioridade moral”, os divisonistas tendem a usufruir de uma grande liberdade de expressão, ao mesmo tempo que gozam de uma igualmente grande liberdade para esmagar a liberdade de expressão dos seus opositores.

Os divisionistas dirão encobertamente: “Estejam calados porque foram vocês que nos fizeram mal no passado. Agora têm de nos compensar.”

Se fosse sério, o máximo que um divisonista poderia afirmar seria algo como: “Os vossos antepassados fizeram mal aos nossos antepassados e agora vocês deveriam compensar-nos dando-nos privilégios e acesso preferencial a recursos.” É claro que se dissessem isso, seriam detectados imediatamente.

Esta assunção de “culpa” da maioria sociedade é bastante visível em França, na Alemanha e, se não tivermos cuidado e os divisionistas forem bem sucedidos, passará a ser visível também em Portugal.

O divisionista é assim chamado porque um dos efeitos que produz é o fortalecimento de um opositor de peso: o racista ou xenófobo. Este representa o outro lado do espectro. Tendo a intuição de que algo está mal com a atribuição de culpa à maioria da sociedade, o membro menos moderado desta maioria, não se resignando com a sua culpabilização pelos actos dos seus antepassados, tende a rejeitar esta “culpa” e a ripostar, revoltando-se contra as minorias, radicalizando assim a sua posição. Na realidade, a sua revolta deveria ser contra o divisionista, mas como este último se confunde com a minoria que afirma estar a representar, a minoria passa a ser o alvo deste radicalizado. Cria-se assim uma divisão que antes não existia: de um lado, a minoria que tende a acreditar que é vítima da maioria, do outro lado, o grupo de radicais que se opõem a essa minoria.

As palavras de um lado e de outro tendem a ser progressivamente mais duras, chegando ao pondo de se materializarem em acções violentas de parte a parte. Violência cria vítimas, vítimas essas que são prontamente instrumentalizadas pela próprias facções (divisionistas e radicalizados) e pelos Média.

Os Média desempenham aqui um papel muito poderoso pois são estes que recriam a “realidade” que é lançada em cima da opinião pública. Controvérsia, ofensa e violência são como gasolina que alimenta a fogueira dos Média. A criação artificial da percepção de uma realidade violenta e injusta serve tanto os propósitos dos divisionistas e dos radicalizados, como ainda os propósitos dos próprios Média.

Controvérsia, ofensa e violência aumentam audiências, essenciais à sobrevivência financeira dos Média.

Tal como uma reacção em cadeia, a agitação criada pelos divisonistas é motorizada pelos Média, ganhando vida própria e alimentando-se a si mesma. O racismo e a xenofobia, até aí sem grande expressão, tendem a ganhar maior relevo à medida que os divisionistas ganham poder. Por outras palavras, quanto mais avançam os divisionistas mais racismo e xenofobia tende a aparecer na sociedade.

Todos os partidos políticos assumidamente xenófobos e racistas que têm crescido na Europa têm sido fomentados pela subida da actividade divisionista.

No momento em que este texto é publicado, não é relevante a actividade xenófoba ou racista em Portugal. Já a actividade de divisionistas é intensa. Não sabemos quanto tempo irá passar até que a maioria da sociedade ceda às manobras destes personagens.

A esperança do autor é que este texto seja lido e compreendido a ponto de ser fácil detectar a actividade divisionista que tem ocorrido. Reconhecer a natureza de um problema é o primeiro passo para o resolver.

O nosso povo não é racista e não é xenófobo. Acreditar o contrário é ir na conversa de quem nos quer dividir e agitar.