Empatia, mas quanto baste

A empatia é a capacidade humana de nos colocarmos emocionalmente na posição da outra pessoa, “sentir” o que ela sente e “ver” o que ela vê. Sem empatia, uma pessoa é fria, egocêntrica, egoísta e não é capaz de compreender os outros seres humanos e, muito menos, de lidar com eles.

A empatia é uma coisa boa, mas deve situa-se em níveis razoáveis

Quando um médico acolhe uma pessoa ferida nas urgências, uma certa dose de empatia é necessária para que este profissional consiga compreender o doente e tratá-lo como um ser humano e com alguma compaixão.

Por vezes consideramos que as pessoas à nossa volta não nos entendem, que não compreendem as nossas dores e as nossas dificuldades e isso faz-nos sofrer e considerar que a espécie humana nos é hostil em algum grau. Do que sentimos falta nessas situações é de essa coisa a que chamamos empatia.

Tal como um copo de vinho pode ser saudável mas uma garrafa inteira pode ser um exagero, assim também é a empatia. A empatia permite que uma pessoa se coloque na posição da outra o que, como já se viu, pode ser bom. No entanto, a posição da outra pessoa, com todos os seus pontos de vista, emoções, dores e maleitas, poderá não ser eventualmente o melhor sítio para “se estar”, se a intensidade de “se estar” nessa posição for demasiado alta. Esta intensidade de “estar na posição” da outra pessoa seria um grau de empatia a que se refere este texto. Uma grande intensidade seria uma alta empatia.

As pessoas têm por vezes problemas físicos ou emocionais e isso reflecte-se no seu comportamento, na maneira como comunicam e na sua competência pessoal para lidar com a vida. Quando as pessoas estão em mau estado, o seu ânimo costuma estar em baixo.

Por razões que têm a ver como o passado do Homem, a sua natureza gregária, a sua tendência de querer estar em companhia de outros humanos, ocorre um fenómeno que é importante conhecer. E o fenómeno é que os seres humanos tendem a tentar atrair os outros seres humanos que os rodeiam, para o seu nível de ânimo. Isso significa que, se uma pessoa está triste, ela terá geralmente a tendência de atrair as outras pessoas para esse estado de espírito. Se as pessoas à volta não estão tristes, não estarão com ela (de um certo ponto de vista emocional). De igual modo, se uma pessoa está feliz, ela terá a tendência de tentar atrair as outras pessoas para o seu estado de ânimo. Este fenómeno explica porque é que as pessoas gostam de contar anedotas, mas também explica porque é que os doentes são tão propensos a ansiar por empatia.

As pessoas podem ser cronicamente altas de ânimo e positivas ou, pelo contrário, devido a múltiplas razões do seu passado, poderão ser cronicamente desanimadas, tristes e negativas. Devido a esta realidade bastante observável, as pessoas compreendem facilmente este conceito de “pessoas negativas” e de “pessoas positivas”. Intuitivamente, as pessoas reconhecem que, para se manterem positivas, têm de evitar estar em contacto com pessoas negativas. No entanto, as pessoas também consideram que, para serem boas (e essa vontade é uma características vincada do ser humano) têm de ser empáticas, dado que empatia é uma coisa boa.

A empatia é, assim, um obstáculo à imperatividade de se afastarem de pessoas negativas, o que gera um contrassenso apreciável – por um lado as pessoas querem ser boas e logo insistem em ser empáticas, mas por outro lado sabem que se não se afastarem de pessoas negativas, terão a tendência de ser contagiadas por essa negatividade.

A solução para este contrassenso (talvez se perceba agora um pouco melhor) é algo como a “conta, peso e medida” da empatia. Ter empatia por uma pessoa é bom, mas ter uma empatia que leve alguém a entrar no sofrimento de uma pessoa ao ponto de perder faculdades de sobrevivência, é mau.

Um médico que esteja tão empático com o seu doente que fique afectado emocionalmente a um ponto de ficar tão em baixo como ele, perde a faculdade de o ajudar. A posição óptima na “escala de empatia” será a que permita compreender o doente para ser capaz de o fazer sentir-se melhor, mas sem se deixar afectar emocionalmente pela situação dele. Por outras palavras, o médico tem de conseguir manter-se acima do sofrimento do doente, embora compreendendo-o.

Já agora, esta capacidade de estar acima do sofrimento é uma habilidade muito vantajosa e pode ser usada, não só na relação com os outros, mas também na relação do indivíduo com o próprio indivíduo, no seu diálogo interno do ser como o seu próprio universo interior.

Temos assim que a empatia é, naturalmente, uma coisa positiva, partindo do pressuposto que a conseguimos controlar para níveis óptimos. Sabemos também podemos (e devemos) procurar estar acima do sofrimento e saber actuar acima dele, quer esse sofrimento seja de outros, ou de nós próprios.

A capacidade de nos colocarmos acima do sofrimento é, em si mesma, uma habilidade considerável e sobre isto “será sempre mais fácil falar do que fazer”. Mas, de qualquer modo, acreditemos que é uma habilidade possível e que deverão haver maneiras de usar essa habilidade. Mas isso será, eventualmente, um bom tema para um outro texto.