O ser humano comporta-se como indivíduo, mas também se comporta como grupo. Podemos observar grupos que parecem ter uma “alma própria” e um comportamento por vezes insano que não não seria subscrito por qualquer dos indivíduos que compõem o grupo, mas que ainda assim resulta em acções desse mesmo grupo.

Uma multidão comporta-se como um gigantesco organismo, no seio do qual o indivíduo se submete à “disciplina” imposta pelos restantes membros. Uma multidão pode demonstrar comportamentos de extrema violência, de ódio ou de pânico, que se manifestam incontroláveis por qualquer indivíduo que não tenha sobre a essa multidão uma influência extraordinária.
Se observarmos um cardume a partir de um ponto de vista suficientemente distante, a sensação que dá é a de que o cardume é um ser ser vivo com uma mente própria. Se observarmos uma manifestação nas ruas, por vezes podemos ter a mesma exacta sensação.
Este comportamento de grupo pode ser observado numa parte substancial de uma sociedade, nos Média, nas redes sociais, ou num referendo ou campanha eleitoral. Havendo uma suficiente “unanimidade” em torno de uma ideia (quer esta seja sã, ou insana), um qualquer indivíduo que ouse opor-se a essa ideia corre o risco de ser esmagado pela maioria.
Devido a esse fenómeno de massas, uma pessoa com um ponto de vista moderado pode ser moralmente atacado por um grande número de pessoas, se naquele momento a ideia predominante for radicalmente a favor, ou contra, alguma coisa. O mérito da ideia moderada é, neste contexto, completamente ignorado, parecendo que a pessoa está a defender algo horrível quando na verdade o que está apenas a ocorrer é que aquele indivíduo se está a opor a um “organismo” milhares de vezes maior do que ele e que corresponde à “maioria unânime” que defende outra coisa.
Alguém, por exemplo, poderá afirmar que “uma pessoa tem de ser considerada inocente até prova em contrário”. Sendo esta afirmação, em circunstâncias normais, considerada razoável, aceitável e conforme com as regras de um estado de direito, se essa afirmação for proferida num contexto em que a Opinião Pública (o tal grande organismo) estiver, por exemplo, mobilizada contra alguma celebridade acusada de assédio, a dita afirmação deixa de poder ser proferida sem que a multidão se torne agressiva para com o indivíduo.
Por outras palavras, na nossa sociedade, a “legitimidade” (aos olhos da multidão) daquilo que se diz depende muito pouco da sua veracidade ou da sua razoabilidade, e depende muito mais do maior ou menor grau de alinhamento do que se diz com aquilo que a multidão “diz”.
Isto representa uma violação, entre outras coisas, de algo que a própria sociedade tanto valoriza: a liberdade de expressão. Neste fenómeno parece haver um “valor” que se sobrepõe a todos os outros: a “expressão da multidão”. A “expressão da multidão” é mais importante do que a liberdade do indivíduo de se expressar, mesmo que seja para afirmar algo que ninguém possa dizer que é imoral, irrazoável ou contrário à lei.
A “expressão da multidão” torna-se assim uma espécie força suprema momentânea capaz de esmagar qualquer coisa que a ela se oponha.
Conhecendo este fenómeno, podemos calcular qual o impacto de uma qualquer intervenção pública perante uma qualquer “unanimidade”. Se estivermos perante uma grande e forte “unanimidade” das massas, se essa “unanimidade” estiver no seu pico máximo, mesmo que nós como indivíduos estejamos a ver que a ideia unânime é descabida e desprovida de razão poderemos ter de nos abster de contrariar publicamente essa ideia, pelo menos até que a euforia se atenue para níveis em que seja suficientemente seguro falar.
Dependendo da sociedade em que estivermos, segurança tanto pode significar não ser humilhado publicamente, como pode mesmo significar não ser fisicamente atacado por desconhecidos.
Nos Estados Unidos, um político que “ousou” afirmar para uma multidão que as Alterações Climáticas tinham influência humana (o que contrariou a ideia predominante do seu eleitorado) viu-se vaiado e publicamente humilhado, tendo perdido as eleições em seguida, para nunca mais ter tido a oportunidade de se re-candidatar. É duvidosa a melhor forma que esse político deveria ter usado para lidar com aquela situação; e é também moralmente duvidoso que ele tivesse de omitir a sua opinião apenas para agradar à multidão. No entanto, estando essa multidão tão “envenenada” sobre as Alterações Climáticas, talvez o discurso do político devesse ter sido “suavizado” para evitar chocar de frente naquele momento contra a “força da multidão” (os seus eleitores).
Ao ler o parágrafo acima, qualquer pessoa de “opinião forte” e focado na sua integridade poderá discordar, dizendo que as pessoas têm o dever de dizer aquilo que pensam, independentemente das opinião dos outros. Em essência, eu concordo com isso. No entanto, nada obriga uma pessoa íntegra a ser trucidada por uma multidão, quando essa multidão está tresloucada, “possuída” ou profundamente envenenada. Se o timing não for o mais adequado, a “pessoa focada na sua integridade” arrisca-se a ver aquilo que ela diz totalmente descontextualizado e distorcido, tornando a sua mensagem contra-producente e invalidadando o seu propósito de ser compreendida pela sua audiência .
Por outras palavras, “por vezes é melhor estar calado”, pelo menos até que euforia da multidão se esvaneça um pouco.
É claro que podemos sempre adoptar a “pose do maluco” que diz tudo o que pensa não importado o contexto ou o momento. Esse tipo posicionamento tende a gerar um anti-herói, respeitado por uns, ridicularizado por muitos e até odiado por outros. Esse é o caminho do “senhor controverso”; é um caminho tortuoso e apenas reservado para os mais corajosos, ou para os mais “malucos”.
Dependendo da exposição pública e mediática da pessoa, esta deverá ser capaz de observar bem o “terreno” no qual se movem as multidões e no qual as próprias afirmações serão ouvidas. Se o propósito da pessoa não passar por se transformar numa figura controversa, então é bom ter o cuidado de medir as intervenções públicas em momentos em que o fenómeno da “insanidade de massas” esteja no pico.
Costuma-se dizer que não é apenas importante o que se diz, mas também como se diz. O que se acrescenta agora é que também é de suprema importância decidir quando se diz.