Fake news é o termo inglês para ‘notícias falsas’. Neste caso, vão-me perdoar, prefiro mais usar o termo em Inglês pelo seu simbolismo e conteúdo mediático muito eficazmente popularizado pelo Presidente Donald Trump. Certamente será fácil para o leitor reproduzir na sua mente a expressão repetida, vezes sem conta – “Fake news, fake news!”
Neste artigo exponho a razão pela qual considero que este assunto melindroso também nos acaba por trazer um benefício totalmente inesperado. Mas primeiro, falemos do que é se considera fake news e sobre o futuro deste assunto e da sua implicação na realidade democrática da nossa sociedade.
Fake news são notícias que não reproduzem a verdade do que realmente aconteceu, mas que são suficientemente credíveis para que uma parte dos cidadãos assuma que são verdade. As fake news representam uma ameaça para a cidadania dado que se torna mais difícil que um cidadão consiga reconhecer e diferenciar o que é verdade e o que apenas é uma fantasia.
Com o advento da Inteligência Artificial e todo o trabalho que tem sido desenvolvido no Cinema para criar vídeo cada vez mais realista no qual é mostrada uma alteração da realidade, é cada vez mais possível reproduzir discursos que determinado político efectivamente não fez. Sendo uma alteração da realidade, as fake news têm o potencial de servir interesses que podem ir muito para além do simples entertenimento.
Lembra-se do ministro grego Yanis Varoufakis ter feito um gesto obsceno numa palestra em 2013? Para espanto de todos, o ministro negou ter feito aquele gesto. Este foi um caso muito representativo do do que se designa agora como “deep fake video”. Ora veja:
Este vídeo mostra a manipulação que já se consegue fazer, com a qualidade e realismo a aumentar dramaticamente a cada dia que passa.
Quando já não for possível distinguir o que é real do que é falso?
Irá chegar muito brevemente um momento em que não será possível distinguir o que é real do que é falso. Poderemos vir a ter um anúncio do Presidente Putin a anunciar que acabou de lançar um míssil nuclear em direcção à Grã-Bretanha, ou a publicação, a dias das eleições, de um vídeo de cariz degradante no qual aparece um candidato a um cargo público importante.
Estamos a falar de um assunto extremamente importante para a Democracia.
Quando um político for apanhado num vídeo verdadeiro e que o comprometa, será também possível que este o refute como sendo um vídeo falso, mesmo se não o for.
Um benefício inesperado das fake news
Deste novo paradigma de progressiva dificuldade de acreditar se determinada notícia é falsa ou verdadeira emerge, surpreendentemente um benefício para a própria Democracia. Estando ao dispor de qualquer grupo, ou de qualquer cidadão, a capacidade técnica de produzir fake news e deep fake videos as pessoas que até agora têm controlado as várias democracias em redor do mundo sentem que o seu poder está ameaçado como nunca tinha acontecido até aqui.
O poder dos grandes lóbies reside no próprio funcionamento dos mecanismos de reeleição de políticos (aquilo a que atribuímos o nome de ‘Democracia’). Até agora tinha sido possível controlar a percepção do público votante através dos Média, levando a maioria a reeleger os políticos que esses grupos poderosos queriam reeleger.
Ao contrário do que ocorre numa Autocracia (regime em que o poder não depende da votação popular), numa Lóbicracia (o regime em que na verdade nós vivemos) o poder é detido por grupos de interesses e reside na cuidadosa manipulação da votação popular.
As fakes news vêm mudar este paradigma para um estádio, que embora seja sinistro, traz consigo um benefício inesperado – de repente os lóbies poderosos já estão a achar que talvez seja melhor o Povo ser mais culto para (e passo a reproduzir o que me parece ser o pensamento deles) que cada cidadão consiga “pensar pela sua própria cabeça para não acreditar facilmente nas fake news“.
Ora, se olharmos para isto com muita atenção, veremos que é surpreendentemente avassalador! Temos os actuais mais poderosos com medo de grupos rivais e a quererem aliar-se ao Povo (que operacionalmente decide o rumo do poder, mas não mais do que isso) para que o Povo “não se deixe manipular”. Esses grupos rivais têm, pelo que temos observado, mais tendência para a Autocracia e tendem a representar uma ameaça para todo o sistema vigente.
Quer o consideremos mau ou bom, há um sistema que nos tem regido nas últimas décadas. Esse sistema integra, no seu topo, uma elite que aparentemente tem como propósito principal a acumulação de poder e de dinheiro. Mas, o sistema actual também integra todo o aparelho “democrático”, os Média e todo o Sistema de Ensino, este último uma peça essencial no controlo das massas. Mau ou bom, este sistema tem garantido um certo equilibrio, paz e alguma prosperidade, embora com grande sacrifício da inteligência individual e colectiva.
São as falhas deste sistema vigente que tem motivado determinados grupos (mais nacionalistas, mais virados à direita e, eventualmente, mais virados para a Autocracia) a quererem conquistar o poder do Estado. Esta é uma “luta de titãs” na alta esfera do poder. Se é verdade que esses novos poderosos defendem políticas viradas para o progresso económico, eles também defendem coisas que não beneficiam os poderosos actuais, tais como o proteccionismo, por exemplo. Têm sido ultimamente esses grupos a utilizar com mais sucesso a arma fake news.
Muitas evidências apontam para a possibilidade de terem sido activadas tácticas poderosas de manipulação de massas, tanto no referendo do Brexit, na Grã-Bretanha, como nas últimas eleições nos Estados Unidos. Sabe-se hoje que parte dessas tácticas se basearam na divulgação massiva de fake news através das várias redes sociais, nomeadamente do Facebook e do Twitter. Estamos a falar de manipulação efectiva da Democracia já eventualmente consumada. Não estamos apenas a prever o futuro. De uma certa forma (usando aqui um clichê) o futuro já começou.
As fake news não são nada de novo
Na verdade os Média não têm feito outra coisa a não ser transmitir fake news durante todo a vida da Democracia nestas últimas décadas. Para o poder estar tão concentrado nas elites actuais, não poderia ser sido de outra forma.
Ao Povo sempre tem sido dado “Pão e Circo”. O “pão” representa aqui tudo o que os políticos mais socialistas têm dado a cidadãos que efectivamente não têm retribuído com productividade e capacidade de trabalho. Falo dos subsídios dados a quem demonstravelmente não quer trabalhar e ser competente e algumas condições laborais visivelmente insustentáveis continuamente a ser oferecidas a grupos de votantes chave, muitas vezes arrancados por estes com recursos a greves e outras “formas de luta” a que o Estado continua a expor-se, com prejuízo de todos os restantes cidadãos. O incentivo dos políticos (controlados pelas elites actuais) é claro: a reeleição para a perpectuação do Status Quo.
O “circo” representa todo o entertenimento cada vez mais primário a que os cidadãos são sujeitos diariamente através dos Média. O futebol, as novelas intermináveis e de baixa qualidade e toda a manipulação noticiosa é disso exemplo e à vista de todos.
As fake news podem, a meu ver, ser entendidas de uma forma mais abrangente – não só incluem notícias específicas que são alteradas ou criadas para transmitir falsidades, mas também a própria selecção do que se considera ser notícia. Quem controla o filtro de notícias que chegam ao público em horário nobre, controla a percepção da realidade do próprio público.
Fake news, neste sentido, não é nada de novo. Todos os dias pessoas morrem de ataques cardíacos, por exemplo. Se alguém, com poder suficiente, quiser dar a impressão de que “ataques cardíacos” são uma “epidemia”, mesmo sem haver um aumento de casos, tudo o que tem de fazer é passar um maior número de notícias de casos de ataques cardíacos. Conseguindo isso, o que o espectador maioritariamente vê é o que aparece nas notícias, o que neste exemplo se traduziria num aumento de preocupação generalizada com este assunto. Controlando o que chega ao cidadão, controla-se a sua percepção. Por isso, poderíamos mesmo de falar aqui de ‘falsa realidade’, porque é mesmo disso que se trata.
O novo aliado do Povo – a Elite actual
Para que a elite actual se consiga manter no poder, irá ter de desfazer o que tem estado a fazer durante décadas – terá de “desemburrecer” as pessoas. Quero com isto dizer, as pessoas tem de ser mais qualitativamente informadas, mais eficazmente educadas, de modo a tornarem-se mais imunes às manipulações das fake news, nomeadamente em vésperas de eleições.
Confesso que estou a ser optimista a este respeito, mas parece-me muito plausível esta ideia. A ignorância a que as pessoas foram submetidas há várias gerações poderá torná-las muito vulneráveis às manipulações provenientes de grupos menos moderados e menos defensores das liberdades de que gozamos nos dias de hoje. Se até agora toda essa ignorância sistémica era favorável às elites no poder, com o advento do populismo (armado com discursos mais demagógicos e fazendo o uso de fake news) o equilibrio de poder está a mudar, tornando a educação das massas uma verdadeira prioridade também para as elites. Isto não deixa de ser irónico, mas a manutenção no poder assim o parece obrigar.
Para que essa educação seja efectiva, o propósito tem de deixar de continuar a ser a manipulação como até aqui, até porque já se percebeu que a direita menos moderada parece ser, ela mesma, imune às fake news. Pelo contrário, são os timoneiros do poder actual (esquerda moderada, direita moderada e até mesmo a esquerda menos moderada, curiosamente) os que mais têm sofrido os efeitos devastadores das fake news.
Os efeitos das fake news não são, aparentemente, iguais para todos.
Se as actuais elites não perceberem isto, corremos todos o risco da subida ao poder sistemática de pessoas com maiores tendências autocratas. A meu ver, as elites não têm outro remédio senão, apostar rapidamente, e massivamente, na reeducação das massas, independentemente da luta tecnológica e legislativa que possam também empreender para mitigar os efeitos manipulatórios das fake news.
Veja ainda este magnífico documentário sobre esta tecnologia que permite colocar palavras na boca de pessoas que nunca disseram tal coisa:
